Acionistas da USA Rare Earth aprovam capital para comprar Serra Verde por R$ 14,5 bilhões

Negócio prevê compra da produtora de terras raras em Goiás e amplia presença dos EUA na cadeia do mineral

Acionistas da USA Rare Earth aprovam capital para comprar Serra Verde por R$ 14,5 bilhões

Os acionistas da USA Rare Earth, mineradora americana de terras raras, aprovaram na última semana a emissão de 126,8 milhões de novas ações para viabilizar a aquisição da Serra Verde, dona da mina Pela Ema, em Goiás, em uma operação avaliada em US$ 2,8 bilhões.

A operação, anunciada em abril, prevê a compra de 100% do Grupo Serra Verde por cerca de US$ 2,8 bilhões (R$ 14,5 bilhões), em uma combinação de dinheiro e ações. A aprovação dos acionistas era uma das condições necessárias para o fechamento do negócio.

Com a operação, a USA Rare Earth pretende incorporar à sua estrutura um dos ativos mais estratégicos da cadeia global de terras raras fora da Ásia. A Pela Ema, localizada em Minaçu (GO), já está em produção comercial e é uma das poucas operações fora da Ásia em escala comercial com produção dos quatro elementos usados em ímãs permanentes de alto desempenho: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

Esses materiais são empregados em veículos elétricos, turbinas eólicas, drones, equipamentos de defesa, eletrônicos e outras tecnologias.

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EUA colocam bilhões na operação

A aquisição ocorre em meio ao esforço dos Estados Unidos para reduzir a dependência da China em uma cadeia considerada estratégica para a indústria e a defesa.

Em 24 de agosto, a USA Rare Earth anunciou que havia concluído a capitalização de um veículo de propósito específico (SPV) criado para comprar 100% da produção da primeira fase da Serra Verde. A estrutura foi ampliada para US$ 1,55 bilhão.

O Departamento de Guerra dos EUA comprometeu US$ 750 milhões com uma empresa criada especificamente para comprar a produção de terras raras da Serra Verde, US$ 250 milhões acima do valor originalmente previsto. Essa estrutura também obteve uma carta de compromisso para uma linha de crédito de até US$ 500 milhões com um banco institucional.

Além disso, o governo americano firmou um contrato para comprar dessa empresa pelo menos US$ 300 milhões em produtos de terras raras ao longo de cinco anos.

A estrutura vai além de financiar a expansão da mina. O acordo de fornecimento firmado em abril tem duração de 15 anos e prevê preços mínimos para as terras raras magnéticas. Segundo a Serra Verde, o contrato inclui os primeiros preços mínimos específicos do setor para os elementos pesados disprósio e térbio.

Na prática, o modelo combina financiamento, comprador e proteção de preços para reduzir o risco da operação e dar maior previsibilidade à produção.

Da mina ao ímã

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O interesse americano na Pela Ema não se limita ao minério. A USA Rare Earth pretende combinar a mina brasileira com suas operações de processamento, produção de metais, ligas e fabricação de ímãs nos Estados Unidos e no Reino Unido. A estratégia é criar uma cadeia integrada da mina ao ímã, reduzindo a dependência de fornecedores chineses nas etapas seguintes da produção.

Esse é um ponto central da disputa global por terras raras. A China não domina apenas a mineração, mas principalmente as etapas de processamento e fabricação de produtos de maior valor agregado.

A Pela Ema produz um carbonato misto de terras raras, mas o material ainda precisa passar por processos de separação e transformação antes de chegar à indústria de ímãs.

O desafio é especialmente grande para as terras raras pesadas, como disprósio e térbio. A China possui uma posição dominante justamente nessas etapas mais sofisticadas da cadeia.

Mina tem potencial, mas enfrenta desafios

A aquisição também envolve riscos operacionais. Segundo apuração da Bloomberg, as taxas de recuperação de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio na Pela Ema ficaram entre 20% e 30% durante a fase de aumento da produção, abaixo da expectativa inicial de aproximadamente 80%.

A taxa de recuperação mostra quanto do conteúdo de terras raras presente no minério é efetivamente extraído e aproveitado no processo industrial.

A Serra Verde não comentou os números. Em abril, porém, o diretor de operações Ricardo Grossi afirmou que a companhia estava substituindo equipamentos e que os recursos do governo americano ajudariam a financiar melhorias na operação.

A empresa espera atingir uma produção anual de 6.400 toneladas de óxidos de terras raras até o fim de 2027.

O Brasil fica com o minério, mas e o valor agregado?

A aquisição coloca o Brasil no centro da disputa entre Estados Unidos e China por uma cadeia de suprimentos considerada estratégica.

O país possui uma das maiores reservas mundiais de terras raras, mas ainda tem participação pequena na produção global e, principalmente, nas etapas de processamento e fabricação de produtos acabados.

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Esse é um dos pontos que preocupam o governo brasileiro. Enquanto os Estados Unidos buscam garantir acesso ao minério e integrar a produção brasileira a uma cadeia internacional sob sua influência, Brasília defende que uma parcela maior do processamento e do refino seja realizada no país.

A discussão ganhou força com o avanço de projetos estrangeiros no setor. O governo Lula tem pressionado pela aprovação de uma legislação específica para minerais críticos e estratégicos, com regras para investimentos estrangeiros e estímulos à industrialização no Brasil.

O debate é estratégico porque o Brasil pode ter uma posição relevante na nova cadeia global de terras raras, mas corre o risco de permanecer concentrado na etapa de menor valor agregado: a extração e exportação do minério.

A compra da Serra Verde faz parte de uma estratégia mais ampla da USA Rare Earth para construir uma cadeia de terras raras fora da Ásia.

A companhia afirma que, após a aquisição, terá acesso à única mina fora da Ásia em produção comercial dos quatro principais elementos magnéticos e poderá combinar o ativo brasileiro com suas operações nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Para Washington, a operação representa uma tentativa de garantir uma fonte alternativa à China. Para o Brasil, ao mesmo tempo, abre-se uma oportunidade de atrair bilhões de dólares para um setor estratégico — mas também o desafio de garantir que o país não fique apenas com a extração enquanto as etapas mais sofisticadas e rentáveis da cadeia sejam realizadas no exterior.

A USA Rare Earth espera concluir a aquisição após a aprovação dos acionistas e o cumprimento ou a dispensa das demais condições previstas no acordo